Achei este artigo de Argemiro Procópio muito interessante. Fala sobre o Brasil como exportador de mão de obra. Traz alguns dados muito interessantes sobre garimpeiros e madeireiros ilegais na Guiana Francesa.

O artigo saiu no Correio Braziliense de 16/05/2007, e está disponível na íntegra no site do Ministério das Relações Exteriores. (veja o artigo aqui)

… No Equador, levas de desplazados, fugitivos das áreas de fumigação na Colômbia na guerra contra as drogas, penam no esquecimento da opinião pública mundial. Na Guiana Francesa, extremamente maltratados, os imigrantes ilegais nascidos no vizinho Brasil engrossam o caldo da crise. Lá, constituem 10% ou mais daquela população — proporcionalmente a maior colônia de brasileiros no exterior. No Suriname, a vida dos brasileiros imigrantes tampouco é melhor. …

Quando estive na Amazônia um garimpeiro (ver relatos do Jonilson) comentou que brasileiro pego sem documentos na Guiana Francesa e/ou na Venezuela (agora não lembro com exatidão) apanhava pra caramba!

Além do Garimpo

25 abril 2007

De Manaus meu próximo destino era Santarém. O barco San Marino tinha a saída prevista para o meio-dia e deveria chegar a Santarém às 19 horas do dia seguinte. A passagem é comprada direto com o dono do barco ou com cambistas que circulam no porto. No dia anterior ao embarque o dono havia me informado que a passagem custava R$ 120,00 e não era possível fazer por menos. No dia seguinte, 1º de janeiro, ao chegar ao porto, sem nenhuma negociação, um cambista cobrou-me R$ 100,00. Embarquei uma hora antes da partida do barco para garantir um bom lugar para colocar a rede. O barco tem três conveses, no primeiro está o motor e algumas cargas, sempre há lugar para colocar rede pois devido ao barulho a maioria dos passageiros prefere o segundo convés. Nesse há um grande vão onde são colocadas as redes de forma ortogonal ao barco, dispostas em duas fileiras paralelas ao barco. Na proa há a cabine do comandante e na popa os banheiros e a mesa onde são servidas as refeições inclusas no preço da passagem (café da manhã, almoço e janta). O local ideal para pendurar a rede é o mais próximo possível da cabine do comandante. Primeiro porque é a localização mais afastada possível do motor; segundo, a parede da cabine é uma proteção contra o vento relativo, que especialmente de madrugada torna-se inconvenientemente frio; terceiro, está do lado oposto aos banheiros e à mesa de refeições, conseqüentemente com menor trânsito de pessoas. O barco estava vazio por ser feriado e a partida seria às 13 horas. O horário de partida era estratégico pois a próxima refeição seria a janta, da mesma forma que o horário de chegada às 19 horas fez com que a última refeição servida fosse o almoço. Naturalmente há no barco um bar que vende lanches e bebidas.
No barco dorme-se em redes

Barco sendo carregado

Estivador

Comendo na rede

A cozinheira e o buffet

Barco

Banheiro e lugar para tomar banho durante a viagem no barco

Comendo em pé
Estava no bar com Wilson (ver relato Amazônia e Garimpo) e não lembro como, mas depois de nossa conversa sobre garimpo acabamos abordando o tema viagens, e acabei falando do tempo em que morei na França. Então Wilson disse que também conhecia a Europa, havia estado em Madri e Amsterdã. Fiquei surpreso! Perguntei o que ele havia achado das cidades e ele disse: “Pois é, fiquei pouco tempo, cheguei em um dia e voltei no outro.” A minha expressão de espanto e curiosidade foi mais ou menos como a sua caro leitor. “Foste deportado?” perguntei. Com uma cara de quem acabou acuado e refém de uma efêmera amizade de barco, forçado agora a dar uma resposta ele disse: “É… fui a trabalho pros Colombiano”. Eu devo ter perguntado umas três vezes: “Sério? Não acredito, como assim?”. O barco apitou e partiu, teríamos dois dias até Santarém para conversar melhor.

Quando Wilson tinha 21 anos o garimpo onde trabalhava fechou. Ele tem um irmão e uma irmã mais novos, a mãe, separada do pai, está desempregada. Wilson é pai de duas filhas e também é separado, o motivo do divórcio parece ser o mesmo em toda a Amazônia, um “par de chifres”, como conta ele rindo. Seu irmão mais novo tem um casal de filhos e também é divorciado. Na casa onde mora em Santarém vivem Wilson, sua mãe, seu irmão com o casal de filhos e sua irmã, atualmente com 18 anos de idade. Cabe a ele e ao irmão o sustento da família.
Desempregado após o garimpo ofereceram-lhe o “serviço”: levar coca de Tabatinga a Fortaleza. Tabatinga fica no oeste do estado do Amazonas, é tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. Letícia é a cidade colombiana na região, a mesma, e única, avenida une ambas as cidades. Não há uma “fronteira”, apenas os marcos demarcatórios e a mudança do idioma nos letreiros das lojas, algo como a fronteira entre Santana do Livramento (RS) e Rivera no Uruguai. Entretanto o lado de Letícia é rico enquanto o de Tabatinga é pobre, decadente. Conversando com um colombiano natural de Letícia que trabalhava como oficial de Justiça no Fórum de Presidente Figueredo (AM) ele disse: “Letícia continuará prosperando enquanto houver coca e o rico continuar cheirando”.
Desde o fechamento do garimpo Wilson trabalha para um colombiano, seu chefe, que compra a coca das FARCs (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), estas por sua vez compram dos “cocaleiros”, os agricultores que cultivam a folha de coca, segundo Wilson estes são os que menos ganham no processo, as FARCs adquirem a coca dando em troca alimentos, remédios, roupas, ferramentas, etc. Apesar de ganharem pouco, a coca é a melhor opção de cultura para os camponeses, frente a ela qualquer outra atividade é economicamente inviável, é a lei de mercado, a mão invisível de Adam Smith também atua ali.
Wilson é um “mula”, contou que leva “pianos” (teclados grandes) com seis a sete quilos de coca em cada um. Também já levou a coca na forma líquida usando garrafas PET dois litros, muito usadas no Norte para transportar suco de frutas. Também já levou em cápsulas no estômago e na roupa, nesse último método a pasta de coca é usada para engomar camisas. Para levar dois pianos de Tabatinga a Fortaleza ele ganha R$ 16.000,00. O colombiano liga para seu celular e manda o dinheiro para ele ir até Tabatinga, lá ele pega os pianos já “carregados” e os leva de barco até Santarém (PA), onde de ônibus vai até Marabá (PA) e de lá vai a Fortaleza, de onde a droga é distribuída para o Brasil. Quando ele chega a Fortaleza liga para o celular de seu contato e em seguida encontram-se em um hotel para a entrega, recebe a mala com o pagamento e está por sua conta. “Quando entrego os pianos e pego a mala, o alívio, a alegria, é demais! Aí é hora de comemorar, peço um táxi e vou pro cabaré raparigar” diz ele. Conta que em Fortaleza já tem uma prostituta que não lhe cobra mais pelos serviços. Conheceu-a depois de uma entrega, pagou R$ 150,00 pelo programa e depois passaram o dia juntos, ela usava cocaína e ele comprou R$ 50,00 de pó para ela, 21 anos. Em outra entrega gastou R$ 600,00 para ele e o taxista festarem a noite inteira, tudo pago por ele, “no fim o taxista nem cobrou a corrida”.
Eu pergunto se ele tem amigos que também são mulas, ele diz que tem 50 amigos que estão presos, ele é o mais jovem deles. Várias vezes “caíram” (foram pegos) os contatos que lhe entregariam a droga ou os que a receberiam. Conta que uma vez, ao chegar ao hotel combinado para a entrega a polícia já estava lá, ele deu meia-volta, pegou um táxi e partiu, depois ligou para o chefe para avisar. Outras vezes a polícia apreendeu a droga que ele transportava, mas ele escapou. “E como é que fica? Com o teu chefe”, perguntei. Ele respondeu: “Sem problema, basta ligar e avisar que perdeu, ele confia, mas também se descobrir que o cara está revendendo a mercadoria em vez de entregar, aí morre”, e completou: “Não tem perigo, basta tu ser um cara honesto, correto” (risos). Com o tempo ele foi evoluindo na “carreira” e ganhando a confiança do chefe, dos pianos passou a fazer vôos para a Europa. Lá a droga chega em Lisboa e Madri e os mulas levam-na de trem até os contatos em Amsterdã e na Alemanha. Em uma viagem como esta ele leva de quatro a cinco quilos, o patrão paga a passagem de ida e volta e o dinheiro para o deslocamento na Europa. Ele faz o contato com quem vai receber a droga pelo celular. Pelo serviço recebe € 10.000,00 e como diz “e ainda conhece a Europa”. Como morou em Letícia por um tempo fala bem o espanhol, quando vai a Madri diz que o pai é empresário e está a passeio. A droga em Letícia custa R$ 6.000,00 o quilo, em Fortaleza e nas demais grandes cidades brasileiras aproximadamente R$ 12.000,00, dependendo da pureza. Na Europa o quilo custa R$ 70.000,00. Wilson conta que para lá eles mandam uns 20 mulas em um avião para chegarem cinco, os outros 15 são pegos.
Pergunto se ele percebe quando alguém está levando droga, ele conta que muitas vezes percebe, uma vez pegou um ônibus ao lado de um baiano que a cada hora falava ao telefone: “Tá tudo tranqüilo, tá tudo bem, sim, estou com as seis camisas, estão aqui comigo”. Disse que no fim da viagem bateu nas costas do baiano e disse: “Tá carregado hem irmão, boa sorte”.
Pergunto se ele nunca tentou levar a droga por conta própria. Ele diz que já tem os contatos, tanto de compra em Letícia quanto de venda em Fortaleza, mas nas três vezes que tentou fazer isso perdeu a droga. “Nunca te pegaram?” perguntei, e ele disse: “Pois é, nessa ida a São Gabriel me pegaram em Santa Isabel (Santa Isabel do Rio Negro, cidade a 200 km rio abaixo de São Gabriel)”. “E aí?”, disse eu, “Me encheram de porrada”. Ele foi pego pela Polícia Militar, estava em um bar e não sabia que o amigo que estava com ele estava sendo procurado, só viu uma moça apontando para eles e a polícia chegando. Ele tinha uma amostra da droga e a polícia queria que ele revelasse onde estava o resto. Ele não falou nada e começaram a espancá-lo, ele conta que agüentou um pouco, mas as torturas foram piorando, começaram a fazer cortes em seu pé, entre os dedos, depois o rosto, no limite entre o nariz e a testa, ele revelou onde estava a droga, foram lá, pegaram e continuaram torturando-o, querendo saber onde estava o resto, e assim foi até ele entrar em coma e ir para o hospital. Nesse meio tempo a mãe dele já ia para Santa Isabel buscá-lo, ele ficou no hospital um tempo e assim que melhorou o soltaram. Os PMs ficaram com a droga para revenderem. Ele comentou que se fosse a Polícia Federal ele estaria preso.
“Você é louco” eu falei, ele disse que já havia trabalhado como ferreiro e churrasqueiro profissional, mas não conseguiria voltar a ganhar R$ 350,00 por mês sabendo que com uma entrega podia ganhar para o ano todo. Contou que no Natal passado (2005) a família estava sem ter o que comer, o irmão mais novo desempregado. Ele não passou com a família, estava entregando dois pianos em Fortaleza. Na volta, chegou em casa com presentes para todos, chamou a mãe no quarto e abriu a mala cheia de dinheiro. No dia seguinte com os R$ 16.000,00 comprou uma casinha na periferia para a mãe e a família, um outro ponto comercial, bem simples, para ela abrir uma lojinha ou algo assim e ainda um Verona velho. Ele conta como foi feliz aquele Ano Novo. Com o dinheiro das entregas começou a pagar a faculdade da irmã mais nova, estudante de direito, e fala rindo “vai se formar e trabalhar para a família”, mas depois conta o quanto a irmã chora com medo que ele seja preso. Conta que certa vez ligou após uma entrega e disse que havia sido preso e era para eles contratarem um advogado, quase matou a mãe do coração.
Sobrinho Jonilson

Sobrinha Jonilson
Depois dessa conversa com Wilson fiquei com medo que ele estivesse carregando droga. Perguntei a ele se é comum colocarem a carga na bagagem de outra pessoa para depois resgatar. Ele comentou que é muito raro, principalmente devido ao medo de perder a carga. Mesmo assim fiquei com medo, ele havia comentado que mais ou menos na metade do trajeto, próximo a divisa entre Amazonas e Pará, havia um posto de fiscalização onde revistavam as malas dos passageiros. Na primeira oportunidade que tive desci até minha rede onde estava minha mochila e tirei tudo para ver se não havia sido colocado nada. Depois arrumei tudo e dei um nó na abertura da mochila de modo a perceber caso alguém tentasse abri-la, fiquei nessa apreensão até passar o posto policial, onde os policiais nem entraram no barco, só bateram os olhos na lista de passageiros e mandaram prosseguir.
Chegamos a Santarém às 19 horas, meu objetivo era conhecer Alter do Chão (uma praia de rio que é o destino turístico de lá). Wilson me recomendou um hotel para ficar no centro: “é barato, tem um ótimo café da manhã com frutas. É muito bom, se chega alguém te procurando eles não deixam entrar nem dizem que tu estás, dizem que vão ver, avisam quem é e perguntam se tu queres dizer que estás ali, já fiquei lá várias vezes”. No dia seguinte combinamos que eu iria a casa da mãe dele e de lá iríamos para Alter do Chão. Na verdade ele convidou, e eu fiquei apreensivo, pensando que poderia acontecer algo, mas fui. O hotel recomendado era bom e barato como ele havia dito, paguei R$ 20,00 por dia, café incluso, quarto com televisão e ar-condicionado, e a dona era “gaúcha”, na verdade ela era catarinense de Garopaba, mas do Rio de Janeiro para cima todo mundo acha que todos da região Sul são gaúchos. Pela manhã liguei para o celular da mãe de Wilson e peguei um moto-táxi até o local, era periferia de Santarém, um bairro pobre com ruas sujas e de terra que contrastava com a orla no centro, limpa e com ruas asfaltadas, vários barezinhos à beira-rio. Conheci a irmã de Wilson que estuda direito e o casal de sobrinhos dele. O clima estava muito triste, na última vez que ele havia ido à Europa seu irmão foi junto, como mula, para Madri; Wilson escapou e o irmão “caiu”. Não fazia muito tempo que havia ocorrido, agora a família vai vender o carro para tentar pagar um advogado que tentará a extradição para o Brasil, seu irmão tem 21 anos, no Natal a mãe conseguiu falar com ele, disse que choraram muito e que ele sente muita saudade dos filhos.
Alter-do-Chão
Conversando com Wilson ele não sabe bem o que vai fazer, seu chefe colombiano está preso no momento, mas já ligou para ele dizendo que logo sairá e está cheio de trabalho para Wilson. Eu pergunto se ele não tem como conseguir algo diferente. “Não dá mais para voltar a ganhar R$ 350,00 por mês, comigo é tudo ou nada, calça de veludo ou bunda pelada”.

Amazônia, esta ilustre desconhecida

Resumo: este texto faz uma retrospectiva histórica da região amazônica do descobrimento aos dias atuais. Foi escrito em novembro de 2006, antes de minha viagem à Amazônia de 16 de dezembro a 6 de janeiro de 2007.

A Amazônia, algumas vezes confundida com o estado do Amazonas, compreende a região da grande planície de floresta tropical, também conhecida no exterior com o nome de rain forest, ao norte do Brasil. A Amazônia Internacional abrange: Brasil, Bolívia, Peru, Colombia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. A parte brasileira da Amazônia, também chamada de Amazônia Legal, compreende nove estados: Amazonas, Pará, Acre, Roraima, Rondônia, Amapá, Mato Grosso, Tocantins e oeste do Maranhão.
A importância da Amazônia para o Brasil e o mundo mudou muito ao longo da história. O início da ocupação da Amazônia deu-se em 1616, quando os portugueses fundaram Belém do Pará, com o objetivo de garantir a posse sobre o território conquistado. Apesar de Portugal e Espanha terem assinado o Tratado de Tordesilhas, este não é respeitado por outros países, como França, Inglaterra e Holanda. Exemplo disso é a fundação de São Luís do Maranhão em 1612 pelos franceses.
A povoação nessa época deu-se, principalmente, por meio das missões das Companhias dos Jesuítas, que revelaram-se ótimos administradores e comerciantes. Os missionários tinham dois objetivos: catequizar os índios e usá-los como escravos na extração das “drogas do Sertão”, principalmente o cacau, a baunilha, o cravo e a canela.
Durante a União Ibérica (1580 a 1640), a Coroa portuguesa, sob o domínio espanhol, cria em 1621 o Estado do Maranhão e do Grão-Pará com governo e administração independentes do Brasil. Essa divisão, entre o Norte e o Brasil, de certo modo, permaneceu com o tempo.
Na metade do século XVIII a administração Marquês de Pombal traz grandes mudanças para as colônias portuguesas e também para a Amazônia. Pombal nomeia seu irmão, Mendonça Furtado, para administrar o Estado do Maranhão e do Grão-Pará. Em 1755 o Marquês, visando à consolidação da posse da Amazônia, cria a Companhia de Comércio do Pará e Maranhão, estabelecendo o monopólio da navegação e do comércio, antes feito pelos jesuítas. Em seguida expulsa-os do Brasil e apropria-se de sua riqueza acumulada. Por fim cria leis que objetivam a emancipação do índio, com dois objetivos: obter apoio na expulsão dos jesuítas e, principalmente, usar o índio para garantir a posse da terra. Para esse segundo objetivo era necessário transformar o escravo indígena em súdito do rei. Isso foi feito tornando o português obrigatório e o tupi-guarani proibido, definindo o formato das vilas e das casas, tornando obrigatório o uso de roupas européias e permitindo que índios assumissem cargos públicos.
A Amazônia, até a metade do século XIX, tinha pouca importância econômica para o Brasil, mas invenção da vulcanização em 1849-50 e a utilização do barco a vapor em 1854 mudaram essa situação. Nos Estados Unidos da América a indústria automobilística de Ford conquistara enorme importância econômica, e Good Year, o inventor da vulcanização precisava de borracha, a demanda mundial pelo produto aumentou e isso refletiu-se no preço. No Brasil, com a promessa de lucro fácil inicia-se uma grande migração de nordestinos, especialmente do Ceará, fugindo da grande seca de 1877-80, para o interior da Amazônia, até onde hoje é o estado do Acre e as atuais fronteiras do Amazonas com o Peru. O fausto foi tal que a borracha ganha uma capital, São José do Rio Negro, atual Manaus, sendo ela a primeira cidade do Brasil a ter luz elétrica, possuir jornais editados em cinco línguas, etc. Toda essa riqueza atrai a atenção de capitais estrangeiros, especialmente os ingleses. Forma-se então uma relação entre capital estrangeiro, governo brasileiro e recurso natural que permanecerá. O governo identifica um recurso natural de grande importância econômica, mas do qual a extração ou utilização requer grandes investimentos de capital, capital do qual o governo não dispõe para investir. O capital estrangeiro, auxiliado por suas organizações diplomáticas pressionam o governo para a concessão da exploração. O quanto o Estado brasileiro não possui recursos e busca o capital privado de livre e espontânea vontade e o quanto o capital multinacional utiliza a força diplomática ou até expedientes ilegais, como o suborno de membros do governo, para conseguir vantagens é tema polêmico.
O Estado, desde a época de Pombal, visa à consolidação da soberania nacional na Amazônia. Desde aquela época as dificuldades são as mesmas: a extensão do território, as dificuldades de transporte, a escassez de recursos financeiros, os interesses de potências estrangeiras na região. O governo, especialmente durante a ditadura militar, promoveu políticas visando a desenvolver a região. Dentre estes projetos estão a Transamazônica, o projeto Grande Carajás, Tucuruí e a fabricação de alumínio.
A Transamazônica, fazia parte do projeto, de 1971, que tinha por objetivo “levar os homens sem terras à terra sem homens”. O projeto de integração do Norte consistia na construção de rodovias de Belém a Brasília, de Brasília ao Acre, de Santarém a Cuiabá e de Belém ao Peru, está última sendo a Transamazônica ou BR-230. Ao longo das rodovias seriam criados pequenos lotes rurais para os excedentes populacionais do nordeste serem assentados. O modelo baseado na pequena propriedade rural fracassou, não era economicamente viável, a região de fronteira entre o Pará e o Tocantins tornou-se local de conflitos entre agricultores, posseiros, garimpeiros e madeireiros. A ausência do Estado somada à atividade garimpeira e madeireira causou grande devastação ambiental. No norte do Mato Grosso o gado e a soja avançam através de queimadas ampliando a fronteira agrícola. Em Rondônia e no Acre madeireiras clandestinas lucram com o corte de madeiras ilegais.
Na década de 1950 a multinacional estadunidense US Steel iniciou um ambicioso projeto de pesquisa na Amazônia em busca de reservas de manganês. Com o auxílio da diplomacia estadunidense que firmou acordos de cooperação técnico-científicos entre Brasil e EUA, a US Steel colocou geólogos estadunidenses em universidades brasileiras treinando brasileiros e realizando pesquisas sigilosas. Em 1967, um desses geólogos brasileiros descobriu na Serra de Carajás a maior reserva de minério de ferro do mundo. A descoberta foi comunicada em telegrama codificado ao geólogo-chefe da empresa. Em 1970 um consórcio entre a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) e a US Steel iniciam a exploração de Carajás. Em 1980 a estadunidense abandona o consórcio e a estatal CVRD lança o programa Grande Carajás, que compreende a construção da estrada de ferro Carajás, ligando a serra ao porto de Itaqui em São Luís do Maranhão e a construção da hidrelétrica de Tucuruí, para fornecer a energia elétrica para Carajás e para as indústrias de alumínio em Barcarena, próximo a Belém. Toda a infra-estrutura do projeto Carajás foi feita com dinheiro público, pois a beneficiada, a CVRD era estatal. Em 1997 o então presidente Fernando Henrique Cardoso privatiza a CVRD, gerando protestos. Atualmente a CVRD é de capital privado e o maior acionista é a Brasilprev, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil.
Atualmente a presença e a influência de países na Amazônia faz-se também através de Organizações Não-Governamentais (ONGs), enquanto algumas de fato estão comprometidas com suas causas, outras são apenas uma fachada para grupos estrangeiros realizarem pesquisas clandestinas e tráfico biológico. A ausência do Estado brasileiro em locais ermos da Amazônia faz com que esses grupos possam comprar facilmente a simpatia da população local.
O governo, através do Ministério da Defesa, tem utilizado o projeto Rondon, que consiste em o exército levar jovens universitários para prestarem serviços comunitários a populações carentes, para tornar-se mais presente na região e tentar diminuir a influência das ONGs.
A Amazônia é um outro país dentro, ou melhor, à margem do Brasil; lá utilizam-se barcos no lugar de ônibus, não constroem-se estradas por onde se deseja, mas utilizam-se os rios onde a natureza os colocou, a vocação não é a agricultura, mas o extrativismo do cacau, da borracha, dos garimpos, da madeira. O grande desafio do governo é entender as diferenças da Amazônia, e não tentar moldá-la ao modo de viver sulista. É levar a educação, por exemplo, não pensando em vale-transporte para estudantes, mas em barcos-escola. É preciso mudar o paradigma, integrar para não entregar.

Amazônia e Garimpo

16 fevereiro 2007

São Gabriel da Cachoeira, um município cuja área (109.184 km²) é maior do que a do estado de Santa Catarina (95.346 km²), está localizado no extremo noroeste do estado do Amazonas fazendo fronteira com Colômbia e Venezuela e a 900 km de Manaus. Na viagem de três dias de barco de São Gabriel a Manaus conheci um índio que trabalhava prestando assistência médica às aldeias indígenas mais remotas do Alto Rio Negro e um cearense que contava piadas. Nós três nos conhecemos na rotina do barco, inicialmente conversando no bar enquanto assistíamos aos DVDs de shows musicais, ouvindo o cearense contar piadas e jogando dominó (diferente do dominó jogado no Sul). Eu e o índio ficamos surpresos com o cearense, foram três dias contando piadas sem repetir nenhuma e em algumas tardes contando piadas em seqüência, sem pausa.


São Gabriel da Cachoeira

Chamou-nos a atenção o fato de o piadista estar machucado, tinha o pé direito enfaixado e um corte no limite entre o nariz e a testa. Ele tinha ido a São Gabriel para informar-se a respeito de um garimpo que abriria por lá; na ida à região do garimpo estava de carona em uma moto e acidentou-se. Naturalmente em São Gabriel ninguém usa capacete.

O pé enfeixado não impediu que o cearense entrasse na fila para dançar forró com a mulher do bar no barco em que viajávamos. Era fim de tarde, o sol se punha; o bar do barco estava vazio, pois a janta estava sendo servida no convés inferior. Uns três homens bebiam cerveja e revezavam-se dançando com ela que aparentava uns 20 anos, traços indígenas, cabelos compridos – alcançavam a altura das nádegas – negros e lisos. Dançava descalça no convés. Tinha cerca de 1,75 m, era grande para os padrões regionais, pele indígena de cupuaçu: aquele pardo, castanho claro, tanado, havana, da cor do charuto, enfim, uma cor ímpar e rara, difícil de descrever para o observador sulista, mas comum ao nortista. Tinha as coxas grossas, realçadas pela calça corsário preta apertada de brim desbotado. Usava uma blusinha preta com decote avantajado exibindo os seios grandes. Durante as manhãs ficava sem pressa no espelho de uma das pias comunitárias penteando os longos cabelos negros e ajeitando o decote da blusa.


Forró no bar do barco

Dia 30 de dezembro o barco chegou a Manaus, foram três dias descendo o rio Negro dormindo em rede e comendo frango com farinha. Despedi-me dos conhecidos e dois dias depois estava em outro barco, dessa vez com destino a Santarém. Antes do barco partir, enquanto pendurava minha rede reconheci o cearense. Seu nome é Wilson, ele agora viaja com a mãe que olha-me com ar de desconfiança, eu comento com ela que nunca vi alguém contar tantas piadas quanto o filho dela. Antes do barco partir eu aproveitei que o som do bar ainda não havia sido ligado para sentar-me a uma mesa e ler um pouco. O livro: “Amazônia, a valsa da galáxia – o abc da grande planície” escrito por meus tios Raimundo Caruso e Mariléia Leal Caruso. Resultado de uma viagem de cerca de três meses na região amazônica em que, conforme a contracapa, “o casal (…) – ela, geógrafa; ele, escritor e jornalista – percorreu milhares de quilômetros, recolheu dados e entrevistou importantes historiadores, cientistas, exploradores e intelectuais da Amazônia”. Enquanto lia Wilson chegou e começamos a conversar, ele perguntou se eu era “doutor” (professor ou pesquisador) pois vivia com aquele livro e meu caderninho a tiracolo. Falei-lhe de que tratava o livro e que estava lendo sobre garimpo. Ele trabalhava como garimpeiro desde os 12 anos de idade, agora estava com 25.

O garimpo na Amazônia é muito mais uma opção de sobrevivência do que o sonho de enriquecer facilmente. O garimpeiro trabalha intensamente e nunca tem nada, não tem consciência do impacto ambiental de sua atividade. Nos dias atuais o garimpo é a última tentativa antes da marginalidade. O garimpeiro é o resultado da falência da borracha, do fracasso dos assentamentos rurais na Transamazônica, da grilagem de terras, da “quebra” da Zona Franca de Manaus. Com a abertura comercial nos anos 90 a Zona Franca passou de 90 mil empregos para 40 mil, deixando 50 mil chefes de família desempregados. Atualmente 70% dos garimpeiros na Amazônia são nordestinos e a metade desses é maranhense [CARUSO, p. 350].

Na Roraima da febre do ouro, em 1986, o garimpo era a primeira opção de emprego. Boa Vista foi tomada por ex-posseiros, motoristas de táxi, donas de casa, pedintes, ambulantes, professores, policiais, cobradores de ônibus, prostitutas, seringueiros, todos cegos pelo brilho dourado. Garimpava-se até nas calçadas. Todo dia o “Preto da Guiana”, um negro de uns 60 anos, que falava inglês, passava varrendo a frente das 30 casas compradoras de ouro visando à poeira dos garimpos que vinha com os aventureiros. Usava chapéu de palha, sandálias de couro e empurrava um carrinho de mão com a “puruca” (peneira para areia mais grossa), uma bateia (gamela de madeira usada na lavragem) e uma pá. Ao fim do dia sentava em um meio-fio para com a puruca peneirar toda aquela terra. O resíduo ia para a bateia onde o mercúrio era adicionado para aglutinar o pó do ouro. Em seguida queimava até o mercúrio evaporar deixando o metal limpo. Ele faturava uns “três gramas diários, cerca de 30 dólares. Um salário que muito garimpeiro de verdade jamais veria em toda vida” [CARUSO, p. 380-1].

O garimpo pode ser feito em terra firme ou nos rios. Em terra usam-se jatos d’água para dissolver o solo. A lama e a areia passam depois por sucessivas peneiras. O garimpo dentro do rio pode ser feito com mergulhadores ou com dragas providas de “lançantes” (braços mecânicos articulados que permitem que a mangueira da draga seja manobrada remotamente). Essa forma é a mais segura e também a mais cara. No garimpo de mergulho o trabalho do lançante é feito pelo homem. Nesse caso ex-seringueiros, agricultores falidos, índios são transformados em mergulhadores, ficando até seis horas submersos abastecidos de oxigênio por uma mangueira. Outra mangueira, a “maraca”, de umas 5 polegadas é usada para desbastar a terra no barranco ou no fundo do rio. Essa mangueira é bifurcada na ponta onde de um lado sai o jato d’água que desbasta a terra e do outro o material desbastado é sugado. A visibilidade nos rios – sobre tudo nos de água barrenta como o Madeira, o Solimões e o Amazonas – é nula ou quase, algo como um palmo. O mergulhador não vê, e só consegue orientar-se às apalpadelas, isso faz com que um dos principais riscos do garimpo seja o de desmoronamento do barranco sobre o mergulhador.

Na conversa com Wilson perguntei se ele não achava perigoso isso, ele respondeu: “não tem perigo não, quando estás garimpando de repente tu sentes uma parada, uma calmaria, como se fosse um ar, uma brisa dentro d’água, aí tu mais ou menos sabes que o negócio vai desmoronar, aí é só sair”.

Na Porto Velho do início dos anos 80 a principal moeda era o ouro. O grama de ouro pagava desde a mensalidade da escola do filho até o rancho no supermercado [CARUSO, p. 410]. Dezenas de balsas garimpavam o rio Madeira. Essas eram construídas tendo por base dois grandes tubos flutuantes de ferro. Amarrava-se um assoalho e construíam-se casas. Nessas balsas amarradas entre si funcionavam por vezes verdadeiras vilas com açougues, farmácias, padarias, bares, armazéns e, é claro, boates.

Essa aparente infra-estrutura não era o padrão, mas a exceção. Em São Gabriel conheci Xurimã, um índio de 64 anos que faz “bico” como guia turístico e como muitos é ex-garimpeiro, relata que começou a trabalhar no garimpo em 1961 aos 18 anos. Na balsa em que trabalhava ele dormia ao relento, encostado no seu jumachi (uma mochila de índio feita de palha) só com a roupa do corpo tremendo de frio nas noites de chuva e vento. Ele não tinha a maioria das unhas do pé; conta que ficava seis horas embaixo d’água e depois o sol forte ressecava as unhas. Xurimã conta que não era raro sabotagens como cortar a mangueira de oxigênio ou furar o escafandro entre os garimpeiros.

O trabalho do garimpeiro não se resumia ao mergulho, como relembra Wilson. Quando trabalhou na balsa entre 1993 e 2002 eram quatro mergulhadores para cada bomba. Eles trabalhavam em revezamento, um prestava apoio ao mergulhador na mangueira controlando o ar e a bomba, após cinco horas um novo mergulhador assumia a mangueira, o que estava no suporte assumia o mergulho e o que mergulhava ia descansar. Após os quatro terem mergulhado fechava-se um turno de 20 horas e todos iam “purar” – passar a terra na peneira, na bateia e no mercúrio para extrair o ouro. Do que era produzido o dono da balsa ficava com 60% e cada garimpeiro com 10%. O dono também arcava com todas as despesas de comida e alojamento, de forma que 10% era o ganho líquido do garimpeiro. Se não achassem ouro o dono arcava com o prejuízo.

Segundo Wilson o garimpo em que trabalhou era muito diferente do garimpo de Xurimã nos anos 60. Antigamente era “terra de ninguém”, grandes garimpeiros com pistoleiros tomavam os garimpos menores. Nos garimpos também havia muita droga, prostituição e, sobretudo, violência. Atualmente “o garimpeiro que é pego bebendo na balsa está demitido e também é proibido se amigar com a cozinheira. Bebida só no Natal e Ano Novo”. Devido ao fato de o garimpo ficar longe de sua casa, ele ficava de um a cinco meses na balsa, mas “sempre havia uma cidadezinha próxima para beber e raparigar“.

No livro [CARUSO, p. 126] há o relato de um acidente ocorrido na região do Tapajós em 1980. “Um mergulhador trabalhava a uns seis metros de profundidade, demolindo um barranco, quando sem saber, começou a atacar a base de uma rocha de umas cinco toneladas (…) Então aconteceu o inevitável. Solta da sua base, a pedra rolou esmagando a perna do mergulhador contra uma outra rocha. A mangueira de oxigênio, porém, continuou intacta, e o mergulhador vivo, lá embaixo. Dado o alarme, os demais garimpeiros tentaram de tudo. Cabos de aço, rebocadores, fileiras de barcos. E o mergulhador acidentado, consciente. Houve até quem quis cortar sua perna, na altura da coxa. Então fretaram uma avioneta e foram buscar os dois irmãos, que garimpavam a uns 40 minutos de vôo, no rio Jacareacangua. Nesse meio tempo, centenas de garimpeiros descalços e esfarrapados continuavam chegando dos rios próximos, numa solidariedade muda e inútil. A agonia durou umas cinco horas. Então os irmãos chegaram, mergulharam, e pela última vez na vida reuniram-se em família na obscuridade turva do rio. Francisco de Sousa dos Santos tenta reproduzir, quinze anos depois, os gestos desesperados daquele diálogo impossível. E pouco depois, quando os dois irmãos emergiram, ‘seus rostos estavam brancos como a folha deste papel’. Foi o gesto de piedade que todos estavam esperando: com um único golpe, um deles cortou a mangueira de oxigênio e desligou o motor.”